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Agência Alagoas - AL
13/01/2009 - 20:48

Legado de obras de arte popular imortaliza Fernando da Ilha do Ferro

Considerado Registro do Patrimônio Vivo desde 2007, artesão morreu no último dia 10, mas deixou sua arte em museus, bienal, galerias e lojas de grife

Mário Lima e Nide Lins

DivulgaçãoDivulgação

Arte de seu Fernando em seu local de criação.

“O que mais me encanta no artesanato é o resultado. Quando eu estou fazendo uma coisa assim (uma peça), vem outra na minha cabeça, e aí eu deixo aquela e já começo a outra. E eu não sei quando termina, quem diz é a peça”.

As palavras são do mestre artesão Fernando Rodrigues, uma das muitas almas imortais do rio São Francisco, que deixou a sua história gravada nas madeiras, nas pedras e nos íngremes caminhos das caatingas que cercam a Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar, um lugar idílico e encantado, onde nasceu, viveu e morreu seu Fernando.

O mestre faleceu no dia 10 deste mês, às 14h30, na sua residência – na verdade um ateliê a céu aberto às margens do Velho Chico - em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que sofreu no mês de outubro, e depois de ter ficado por dois meses internado em Maceió.

Mais conhecido como seu Fernando da Ilha do Ferro, ele levou consigo o gentílico de sua própria terra por reconhecimento e direito. Poeta e escultor de mão cheia, suas obras já viajaram pelo mundo afora e estão presentes em museus, bienal, lojas de design e revistas de cultura e design.

No ano de 2007 passou a integrar a lista do Registro do Patrimônio Vivo — lei de 2004 que beneficia os mestres com uma bolsa de incentivo no valor de R$ 500,00.

Para criar as suas esculturas utilizava craibeiras, umulugum e imburana. Ele entrava na mata, preferindo as noites de lua, para buscar a matéria-prima. “As minhas mãos estão fracas”, dizia no final de sua vida. O artesão ensinou a sua arte a muita gente e, hoje, seu neto é o seu seguidor.

Para um viajante de além-rio, uma prosa com um dos mais famosos e lendários artesãos de todo o Baixo São Francisco, é a prova de que a arte ribeirinha está mais viva que nunca. Com ares de imortalidade.
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Simpatia de seu Fernando


Dom Quixote no Velho Chico

Do alto de seus 78 anos, completados em dezembro, seu Fernando Rodrigues, o encantador de madeiras, vivia sua fase de dom Quixote de La Mancha, magrinho, com um cavanhaque mal-cuidado, mas genialmente lúcido.

Em seu pequeno platô-ateliê, atrás da casa, diante da imensidão do Velho Chico, seu Fernando falava com desenvoltura, mostrava objetos e peças de madeira trabalhadas por todos os cantos da casa, pendurados no teto, talhados e recém-acabados no jardim. Na frente da casa, uma área especial só para as suas famosas cadeiras e banquinhos talhados em madeira bruta, com inscrições, frases intempestivas, siglas e palavras indecifráveis.

Ele recebia os visitantes – jornalistas, pesquisadores, gente das artes – sempre com sorriso aberto e de bom humor, marcas que seu Fernando deixou para Alagoas, uma referência do saber e fazer da cultura popular.

Ao final, seu Fernando levava seus convidados para conhecer a “menina dos seus olhos”. Seu pequeno museu, em um quartinho de luz puxado por fio e botão de ligar. Lá estavam seus tesouros, imagens de santos, ex-votos, máquinas de fiar do “tempo do ronco”, uma cadeira de palhinha - único lugar para se sentar - e uma belíssima réplica do vapor Comandante Peixoto.

O museu já tem nome, batizado por ele de “na boca do vento”, e está sendo organizado por um dos integrantes de sua legião de fãs pelo Brasil e mundo afora, o fotógrafo Celso Brandão. O projeto já está sendo desenhado pelo arquiteto Alex Barbosa, autor do Memorial Teotônio Vilela.

Artesão fantástico, seu Fernando não é letrado, mas autor de um livro muito curioso. Ele organizou na memória uma impressionante coleção de contos que garante serem totalmente verdadeiros, com histórias de caças hilariantes, testemunhos sobre Lampião e seu bando, conversas de pescarias inimagináveis e tudo que sua cabeça pensante captou do universo.

Para "não morrer e enterrar os causos", ele passou toda a história para suas filhas e filhos e jovens que contratou para escrever sua história e seu livro de memórias. “Eu tenho um livro sobre tudo no mundo e sobre minha vida, mas não tem nome ainda não. Faz tempo que eu escrevo o livro”, dizia seu Fernando.
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Em família, seu Fernando já trilhando os passos de seus seguidores.



Como o senhor tira de uma madeira a escultura, os bichos que o senhor faz? “Não é só da madeira não meu filho que eu tiro minhas esculturas. Tem pedra que é a cara de uma mulher. Eu fazia coisa pelas nuvens, deitado nessas pedras, meio-dia, eu fazia pro chão. Eu via um tampo de uma parede”, contava o velho artesão, ainda no final de outubro.

A cadeira do presidente Lula

Seu encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em março do ano passado, foi outra aventura do mestre. Um de seus grandes sonhos era entregar ao presidente uma de suas obras: uma cadeira de madeira de lei, de espaldar alto, bem a seu estilo.

E a oportunidade era única. O presidente Lula estava na cidade de Delmiro Gouveia, cidade vizinha, onde lançaria nacionalmente o programa Territórios da Cidadania. Ele estava serelepe, alegre, porém já com a saúde fragilizada.
Tércio CappelloTércio Cappello

Seu Fernando ao presentear o presidente Lula com cadeira de madeira, março de 2008.


Mas ele não quis saber. De óculos escuros, sandália de sertanejo e camisa de linho meio puída, ele se aboletou no banco da frente do carro que o levaria a Delmiro, junto com sua filha mais velha.

Com a ajuda da artista plástica e uma das maiores colecionadoras de arte popular do país e uma fã incondicional sua, Tânia Pedrosa, a cadeira foi levada em outro veículo. Não foi fácil, pelo forte esquema de segurança do presidente e pelo sol de rachar. Mas o cordão de isolamento foi rompido e ele conseguiu levar ao palanque a cadeira para o presidente.

A cena final foi espetacular: depois de abraçar o mestre, Lula, de chapéu de coro, senta na cadeira, para delírio das mais de 10 mil pessoas que estavam no evento. Na volta para Pão de Açúcar, seu Fernando, numa alegria incontida, foi cantando poesias e emboladas bem baixinho, como se fosse para si mesmo.

Ao chegar na Ilha do Ferro encaminhou uma peça de madeira pintada de branco, em um tronco retorcido, para entregar ao governador Teotonio Vilela, originalíssima, em forma de um rojão. A peça tem as inscrições “psicografadas” do rei do cangaço: G.V. e C.R. e TEN. B. AS FORÇAS DE AL ACABOU (sic) COM A MINHA VIDA LAMPEÃO LANÇA ROJÃO (leia-se Getúlio Vargas, Costa Rego e tenente Bandeira as forças de Alagoas acabaram com a minha vida, Lampeão, o lança rojão).

Os desenhos das hastes da própria madeira eram aproveitados pelas mãos do artesão, transformando-se em arte e, em cada banco, as frases escritas manualmente na madeira são uma sabedoria popular.

O fotografo Celso Brandão foi o primeiro alagoano a descobrir o talento do artesão, em 1981, na Ilha do Ferro. “Eu fui a primeira pessoa de Maceió a conhecer a arte de seu Fernando, mas o seu oficio já era bastante difundido no baixo São Francisco”, recorda Celso Brandão, que fez um vídeo “Desvirando o Bicho” sobre a vida e obra do artista.

Segundo Celso Brandão, seu Fernando participou da Exposição de Arte Moderna “O Sentar Brasileiro”, no Paraná, juntamente com os irmãos Cambapa, conhecidos em todos os lugares do mundo pelo design de arte. “Seu Fernando não era mais um artesão de Alagoas; suas obras estão presentes em galerias de artes, lojas de moveis design, bienal e museus”, reforça o fotógrafo.
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Simplicidade em forma de artista.


O secretário de Estado da Cultura, Osvaldo Viégas, acompanhava a arte do seu Fernando desde 2001, pelo Sebrae. “Seu Fernando é muito mais que um artista da cultura popular; é um designer. Perdemos um grande homem, mas vamos organizar ainda este semestre uma exposição sobre o mestre, no Memorial à Republica. Seu Fernando sempre será uma referência cultural e um orgulho para Alagoas e o Brasil”, disse Viégas.

Para a artista plástica Maria Amélia, seu Fernando é o alagoano mais importante da cultura popular que incorporou a memória do seu lugar (Ilha do Ferro) na arte. “Era uma pessoa que aglutinava, que conseguiu transmitir sua arte para família e os amigos da comunidade da Ilha do Ferro. Mas ele é único, assim como sua obra”, declarou Maria Amélia.

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